dez 18, 2010

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Diário de um tetraplégico em recuperação

Advogado Eduardo Jannone, de Bauru, conta a rotina de uma semana no Hospital Sarah, onde passa por reabilitação

Por: Cristina Camargo

Da mesma forma que Luciana, a modelo interpretada pela atriz Alinne Moraes na novela “Viver a Vida”(em 2009), o advogado Eduardo Jannone ficou tetraplégico no auge da juventude e no momento em que começava sua carreira profissional.

Ele sofreu um acidente de carro aos 25 anos, em fevereiro de 2003, quando viajava para prestar concurso ao Ministério Público.

Como Luciana, perdeu todos os movimentos do pescoço para baixo e precisou de adaptar à nova vida.

O advogado começou tratamento no Hospital Sarah, em Brasília, 15 dias após o acidente. Até hoje passa períodos internado como parte do processo de recuperação dos movimentos.
“Os progressos foram muitos”, conta. “No início, eu não possuía movimento algum nem sentia meu corpo do pescoço para baixo. Com o passar do tempo e com o curso do tratamento, fui retomando a sensibilidade abaixo do nível da lesão, bem como recuperando, parcialmente, movimentos de membros superiores (braços, antebraços, punho esquerdo, mão esquerda e dedos dessa mão), equilíbrio parcial de tronco e movimentos da perna esquerda”.

Ele aceitou relatar ao BOM DIA, num diário, cinco dias de seu tratamento, semana passada, no Sarah.

SEGUNDA-FEIRA, DIA 23
‘Cheguei no início da tarde e comecei primeiros exames’
“Iniciei, hoje, mais uma internação no Hospital Sarah – Lago Norte, integrante da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, aqui em Brasília-DF. Será uma jornada de duas semanas, nas quais passarei, na companhia do meu pai e cuidador [uma vez que dependo de auxílio para práticas da vida diária], por uma série de avaliações médicas com a equipe multidisciplinar do hospital, exames de controle, atividades físicas, fisioterápicas, esportivas, de socialização, entre outras. Depois de realizar meu deslocamento para Brasília (parte via terrestre, parte via aérea), dei entrada no Hospital Sarah no início da tarde, sendo encaminhado ao apartamento. Ato contínuo, e depois de almoçar no refeitório adaptado [local onde todos os pacientes e acompanhantes fazem as refeições], a equipe de enfermagem deu início às primeiras avaliações e coleta de materiais para exame. Assim transcorreu o restante da tarde. À noite foi possível conhecer parte dos colegas também internados e cumprimentar os profissionais. Após o jantar, e sabendo que o dia seguinte seria cheio, optei por descansar mais cedo.”

TERÇA-FEIRA, DIA 24
‘Colhi sangue, discutimos metas e grade de atividades’
Por aqui, os dias de atividade começam cedo. Às 7h já colhia sangue, estava de jejum desde às 19h de ontem. Depois de meu pai mobilizar meus braços e pernas [como fazemos toda manhã, há quase sete anos] e tomarmos o café, fui chamado a um dos ginásios para ser avaliado pela fisioterapeuta. Por intermédio da avaliação, que tomou toda a manhã, analisamos dados da minha última internação, realizamos testes [motor, de força, sensibilidade, etc.], discutimos abordagens terapêuticas, bem como traçamos as metas para essa internação, culminando com o início da montagem da minha “grade” de atividades. Logo depois do almoço, já realizei as seguintes atividades: treino de escrita, fisioterapia e hidroterapia. Nos intervalos dessas terapias, tive minha admissão realizada pelo médico chefe da equipe, além da complementação da minha “grade” de atividades, realizada pelo professor de educação física da equipe, bem como uma primeira conversa com a nutricionista. Após o banho e o jantar, aproveitei para assistir TV nas áreas de convivência, verificar e-mails e conversar com os colegas de internação [lesados medulares, cerebrais, paraplégicos, tetraplégicos, crianças, jovens, adultos e idosos] e conhecer belas histórias de vida e superação. Assim conclui o segundo dia.

QUARTA-FEIRA, DIA 25
‘Fiz terapias, treinei e conversei com pacientes’
“Como de costume, o relógio despertou às 6h30. Depois das mobilizações de praxe, o destino foi o refeitório adaptado para o café. Aliás, em todas as refeições [seis diárias], nós mesmos nos servirmos [com exceção dos pacientes que possuem dieta específica e controlada], ficando sob nossa responsabilidade o cumprimento das diretrizes nutricionais. As atividades no Ginásio do Lesado Medular [fisioterapia] e na Quadra de Esportes [musculação] tomaram toda a manhã. Após o almoço, retornei ao ginásio para realizar treinos de equilíbrio e alongamentos, enquanto meu pai participou de atividade em grupo, destinada ao acolhimento aos acompanhantes. Recebemos, no final da tarde, a visita de uma família de Brasília que nos acompanha. Após o banho e o jantar foi possível, às margens do Lago Paranoá, conversar com pacientes de várias partes do país, aproveitando o ambiente mais ameno. Fechei o dia checando e-mails de trabalho, mantendo contato com minha mãe e assistindo o jogo do Fluminense [que, é bem verdade, não teve lá um bom desfecho...].

QUINTA-FEIRA, DIA 26
‘Tirei medidas para nova órtese e discuti anseios pós-lesão’
“Início do quarto dia de internação, nos moldes e horários que já são de conhecimento daqueles que acompanham esses relatos. A manhã foi preenchida com atividades físicas no Ginásio do Lesado Medular – nas quais pude, inclusive, ficar em pé – treino ortostático [prática comum para mim, mas que, confesso, sempre me proporciona uma ótima sensação, uma vez que passo boa parte do dia sentado na cadeira de rodas]. Segui para a oficina, onde foram tiradas as medidas para minha nova órtese de mão [equipamento que posiciona corretamente o membro, ajudando, entre outras funções, a evitar deformidades]. Após o almoço, boa parte da tarde foi livre para os pacientes, uma vez que, às quintas-feiras, toda a equipe do hospital se reúne para discutir, caso a caso, a situação dos pacientes e traçar as condutas necessárias. Encerramos a tarde com uma atividade que leva o nome de GIP [Grupo Interativo de Pacientes], oportunidade muito valiosa onde os próprios pacientes, tomando por base suas realidades de vida diária, discutem as expectativas, anseios e dificuldades relacionadas à vida pós-lesão. Após o banho e jantar, finalizei o dia com a leitura de e-mails, aproveitando para antecipar o descanso, uma vez que a “grade” de atividades para o dia seguinte está super tomada.“

SEXTA-FEIRA, DIA 27
‘Fiz fisioterapia e recebi atendimento psicológico’
A manhã começou chuvosa, sobremaneira aqui na região do Lago Norte. Contudo, isso não atrapalhou as atividades no Sarah Lago Norte, com exceção das atividades náuticas [os pacientes, de acordo com suas condições físicas e indicação da equipe, podem desfrutar de terapias como natação no lago, prática de vela e caiaque]. Após o café da manhã, dei início a atividades de fisioterapia [mobilizações, alongamentos e treino de equilíbrio de tronco, combinado com a prática de movimentos finos], as quais se estenderam por boa parte da manhã. Na seqüência, passei pelo atendimento psicológico individual, de fundamental importância para o processo de reabilitação. Após o almoço, foi possível estender um pouco mais o período de descanso, até o início das atividades de musculação. Como última atividade, pudemos aprender [ou ao menos tentar] jogar xadrez. Terminei a noite passando pelas salas de convivência, aproveitando para conversar. Depois, descansei [como em qualquer ser humano, o cansaço e as dores também nos visitam].

Fonte: BOM DIA- 2009

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